quarta-feira, 29 de maio de 2013

Os “ultrajantes” 1000 km de Nürburgring




“Aquela última corrida no Nürburgring Nordschleife com carros do grupo C em 1983 foi provavelmente a coisa mais ultrajante que era possível de ser feita num carro de corrida naquela ápoca” – assim definiu o segundo colocado da corrida, Stefan Johansson, à Autosport, em 2012.

Crédito: desconhecido
O evento, ocorrido em 29 de maio de 1983, marcou a última vez que uma categoria “top” realizou uma corrida nos infames 20 km do traçado alemão de Nürburgring – o chamado Nordschleife, ou “anel norte” -, uma montanha-russa de asfalto e mais de 170 curvas que corta as montanhas Eifel.

Tendo perdido a Fórmula 1 em 1976, por questões de segurança, os gestores do autódromo haviam posto em marcha a criação de uma circuito menor e economicamente mais viável, no início dos anos 80. As obras já estavam a pleno vapor quando o World Sportscar Championship (WSC) chegaram lá em 83 – e, por isso, a prova aconteceu num circuito 2 km menor que o original, sem suas icônicas reta principal e Südkurve, substituídas por boxes improvisados em uma reta idem.

Acontece que aquele era o segundo ano do WSC com as regulamentações do Grupo C, cujos carros (notadamente, os Porsche 956, majoritários no grid), dotados de motor turbo e efeito-solo, estavam em franca evolução.

“Foi divertido e amedrontador ao mesmo tempo”, diz Johansson, em seu relato à Autosport. “Era preciso muita coragem para andar rápido naquele lugar. Garoava, e usamos pneus slicks num asfalto úmido em boa parte da corrida, e naquele lugar você nunca sabe o quanto estará chovendo na próxima curva. Foi preciso muita determinação.”

Os treinos foram marcados pela impressionante pole-position de Stefan Bellof, em 6min11s13, mais de cinco segundos mais rápida que a de seu companheiro, Jacky Ickx. Cada um pilotaria uma das Porsche 956 de fábrica, a #1 com Jochen Mass ao lado do belga, e a #2 com Derek Bell ao lado de Bellof. Johansson, terceiro no grid, dividia outra Porsche, da Joest, com Bob Wollek.

O grid ainda teria ninguém menos que Keke Rosberg, o então campeão da F1, dividindo uma outra Porsche com Jan Lammers e Jonathan Palmer. Como piloto da Williams, que corria com motores Ford aspirados, os 1000km de Nürburgring seriam a estreia do finlandês competindo com motores turbo.

“Keke era considerado o piloto mais corajoso daquele paddock, mas até mesmo ele achou [a prova] ridícula pra caramba [de tão perigosa]”, relatou Johansson.

Rosberg, cujo carro terminou em terceiro, foi um dos destaques da corrida. Mas foi Bellof que brilhou, assumindo a liderança assim que o pelotão ingressou na parte seca da pista, na primeira volta (ele havia largado de slicks, perdendo brevemente a ponta para a Lancia Martini com Patrese a bordo que saiu com pneus para chuva) e desaparecendo à frente de Jochen Mass, seu orgulhoso mentor.

Foi bem à frente de seus companheiros que Bellof entregou o Porsche #2 a Bell, que, nas voltas seguintes, perdeu boa parte da vantagem para Ickx. O alemão retomou o cockpit e fez logo a volta mais rápida da corrida (6m25s91), para, logo em seguida, se espatifar contra o guard rail na sequência de curvas Pflanzgarten.

Segundo o próprio Bellof, ele fez a mesma trajetória que vinha empregando na tomada da curva, mas um fluxo de ar tirou o carro do asfalto e o fez levantar vôo, girando cerca de cinco vezes no ar, até cair, por sorte, dentro da pista, sem atingir espectadores.

Jonathan Palmer, também à Autosport, contou sua experiência na prova: “Os carros estavam tendendo à decolagem e a direção era puxada e jogada pelas ondulações. Eu fui obrigado a colocar o assento alguns cliques à frente e a segurar o volante com meu corpo inteiro. [O carro] era rápido demais para o circuito”.

BANDEIRA VERMELHA
Poucas voltas depois, quando o #1 de Ickx/Mass  havia completado o 25º giro, a bandeira amarela foi agitada. Em mais um sinal de como as condições de segurança do ‘ring’ estavam deterioradas, o Sehcar (Sauber) SH C6 de Walter Brun, pilotado pelo próprio, sofreu um acidente no trecho veloz da pista. O suíço quebrou um braço e o carro ficou irreconhecível.

Após a limpeza da pista, foi dada a relargada para apenas mais 19 voltas, totalizando 44 – das 49 previstas originalmente. Rosberg aproveitou a última oportunidade de correr no Nordschleife para fazer voltas impressionantes, mas incapazes de tirar a liderança (já superior a 4 minutos, na somatória dos tempos) de Ickx.

Seria uma vitória tranqüila se Mass não tivesse tido um problema de suspensão na Flugplatz, demorando quase dez minutos para trazer o #1 de volta aos boxes. Em apenas 6 minutos, os mecânicos da Porsche colocaram o carro de volta na pista, e, com diversos outros concorrentes sofrendo avarias mecânicas, o resultado final foi uma vitória confortável.

No ano seguinte, a F1 voltaria a correr em Nürburgring, mas no novo traçado, que também seria o novo palco dos 1000km. E o automobilismo, ao menos nas categorias top, se tornaria um esporte um pouco menos ultrajante.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

O melhor do blog em 2012

Foi um ano de muito trabalho, algumas realizações, algum aprendizado, e de menos tempo dedicado ao blog do que eu gostaria. Diversas vezes, tive que colocar o pé no freio, contra a minha vontade.

Algo, porém, não pode ser tirado de mim - a sensação de que este espaço não perdeu a relevância como um lugar de discussão e compreensão do esporte a motor. É com essa missão que inicio mais um ano por aqui.

Enquanto a fornada 2013 de posts não começa, listo abaixo um "top 10", em ordem cronológica, da produção de 2012, para quem quiser ler ou ter a certeza de qua não deixou nada passar em branco. Pode discordar, pode falar mal, também, o espaço para críticas está sempre aberto. Um feliz ano novo aos bravos leitores que continuam clicando por aqui. Muito obrigado pela atenção!

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Sangue de piloto: Um jovem Jo Bonnier completamente esborrachado após capotar sua Maserati em Caracas. A foto é uma raridade.

Diversão garantida: A história da pequena pista de Cadwell Park, no norte da Inglaterra. Pouco conhecida hoje, mas uma das preferidas dos pilotos que correram por lá.

Imola - parte 1 e parte 2: Um relato de miha visita à cidade e seu autódromo, com dicas para quem quer conhecê-la também.

Tony Brooks, o melhor piloto desconhecido de todos os tempos: Brooks nunca foi campeão mundial, mas teve uma carreira impressionante demais para ignorá-lo.


Gilles Villeneuve, o piloto do risco: Pequeno ensaio sobre um dos pilotos mais emblemáticos da história.


A Inglaterra no mapa dos protótipos - BOAC 500, 1967: Talvez tenha sido o post que mais me deu trabalho no ano inteiro - e, mesmo assim, um dos menos lidos. Uma reconstituição de uma corrida em Brands Hatch, que dão uma visão privilegiada do automobilismo da época.


Piquet, o piloto da discórdia: Mal compreendido? Sim, e, talvez, de propósito. Na mesma linha ensaística, algumas linhas sobre o tricampeão.
 
Minhas entrevistas com André Lotterer, vencedor das 24 Horas de Le Mans, e com Alex Wurz, Fisichella e David Brabham: Duas reportagens que fiz para a Folha de S.Paulo para a etapa do WEC em Interlagos.


Os capacetes de Senna: Quando Bruno Senna trocou de capacete para disputar os três últimos GPs do ano, uma janela se abriu para compreender o desenho usado pelo seu tio - e por que a criação de Sid Mosca é uma das melhores de todos os tempos.

Tex-Mex: Um olhar mais detido sob o Circuito das Américas, em Austin, sensação do calendário da Fórmula 1 em 2012.