“Aquela última corrida no Nürburgring Nordschleife com
carros do grupo C em 1983 foi provavelmente a coisa mais ultrajante que era
possível de ser feita num carro de corrida naquela ápoca” – assim definiu o segundo
colocado da corrida, Stefan Johansson, à Autosport, em 2012.
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| Crédito: desconhecido |
O evento, ocorrido em 29 de maio de 1983, marcou a última
vez que uma categoria “top” realizou uma corrida nos infames 20 km do traçado alemão
de Nürburgring – o chamado Nordschleife, ou “anel norte” -, uma montanha-russa
de asfalto e mais de 170 curvas que corta as montanhas Eifel.
Tendo perdido a Fórmula 1 em 1976, por questões de
segurança, os gestores do autódromo haviam posto em marcha a criação de uma
circuito menor e economicamente mais viável, no início dos anos 80. As obras já
estavam a pleno vapor quando o World Sportscar Championship (WSC) chegaram lá
em 83 – e, por isso, a prova aconteceu num circuito 2 km menor que o original,
sem suas icônicas reta principal e Südkurve, substituídas por boxes
improvisados em uma reta idem.
Acontece que aquele era o segundo ano do WSC com as
regulamentações do Grupo C, cujos carros (notadamente, os Porsche 956,
majoritários no grid), dotados de motor turbo e efeito-solo, estavam em franca
evolução.
“Foi divertido e amedrontador ao mesmo tempo”, diz
Johansson, em seu relato à Autosport. “Era preciso muita coragem para andar
rápido naquele lugar. Garoava, e usamos pneus slicks num asfalto úmido em boa
parte da corrida, e naquele lugar você nunca sabe o quanto estará chovendo na
próxima curva. Foi preciso muita determinação.”
Os treinos foram marcados pela impressionante
pole-position de Stefan Bellof, em 6min11s13, mais de cinco segundos mais
rápida que a de seu companheiro, Jacky Ickx. Cada um pilotaria uma das Porsche 956
de fábrica, a #1 com Jochen Mass ao lado do belga, e a #2 com Derek Bell ao
lado de Bellof. Johansson, terceiro no grid, dividia outra Porsche, da Joest,
com Bob Wollek.
O grid ainda teria ninguém menos que Keke Rosberg, o
então campeão da F1, dividindo uma outra Porsche com Jan Lammers e Jonathan
Palmer. Como piloto da Williams, que corria com motores Ford aspirados, os
1000km de Nürburgring seriam a estreia do finlandês competindo com motores
turbo.
“Keke era considerado o piloto mais corajoso daquele
paddock, mas até mesmo ele achou [a prova] ridícula pra caramba [de tão perigosa]”,
relatou Johansson.
Rosberg, cujo carro terminou em terceiro, foi um dos
destaques da corrida. Mas foi Bellof que brilhou, assumindo a liderança assim
que o pelotão ingressou na parte seca da pista, na primeira volta (ele havia
largado de slicks, perdendo brevemente a ponta para a Lancia Martini com
Patrese a bordo que saiu com pneus para chuva) e desaparecendo à frente de
Jochen Mass, seu orgulhoso mentor.
Foi bem à frente de seus companheiros que Bellof entregou
o Porsche #2 a Bell, que, nas voltas seguintes, perdeu boa parte da vantagem
para Ickx. O alemão retomou o cockpit e fez logo a volta mais rápida da corrida
(6m25s91), para, logo em seguida, se espatifar contra o guard rail na sequência
de curvas Pflanzgarten.
Segundo o próprio Bellof, ele fez a mesma trajetória que
vinha empregando na tomada da curva, mas um fluxo de ar tirou o carro do asfalto
e o fez levantar vôo, girando cerca de cinco vezes no ar, até cair, por sorte, dentro
da pista, sem atingir espectadores.
Jonathan Palmer, também à Autosport, contou sua
experiência na prova: “Os carros estavam tendendo à decolagem e a direção era
puxada e jogada pelas ondulações. Eu fui obrigado a colocar o assento alguns
cliques à frente e a segurar o volante com meu corpo inteiro. [O carro] era
rápido demais para o circuito”.
BANDEIRA VERMELHA
Poucas voltas depois, quando o #1 de Ickx/Mass havia completado o 25º giro, a bandeira
amarela foi agitada. Em mais um sinal de como as condições de segurança do ‘ring’
estavam deterioradas, o Sehcar (Sauber) SH C6 de Walter Brun, pilotado pelo
próprio, sofreu um acidente no trecho veloz da pista. O suíço quebrou um braço
e o carro ficou irreconhecível.
Após a limpeza da pista, foi dada a relargada para apenas
mais 19 voltas, totalizando 44 – das 49 previstas originalmente. Rosberg
aproveitou a última oportunidade de correr no Nordschleife para fazer voltas
impressionantes, mas incapazes de tirar a liderança (já superior a 4 minutos,
na somatória dos tempos) de Ickx.
Seria uma vitória tranqüila se Mass não tivesse tido um
problema de suspensão na Flugplatz, demorando quase dez minutos para trazer o
#1 de volta aos boxes. Em apenas 6 minutos, os mecânicos da Porsche colocaram o
carro de volta na pista, e, com diversos outros concorrentes sofrendo avarias
mecânicas, o resultado final foi uma vitória confortável.
No ano seguinte, a F1 voltaria a correr em Nürburgring,
mas no novo traçado, que também seria o novo palco dos 1000km. E o
automobilismo, ao menos nas categorias top, se tornaria um esporte um pouco
menos ultrajante.
